Ah, 1994. Tempos em que programar era um ato de fé pura – você digitava, rezava, e torcia para o computador não virar um paperclip irritante pedindo ajuda[2]. Eu? Eu estava lá, apaixonado perdidamente pelo Clipper Summer ’87, aquela linguagem que fazia você se sentir um hacker de verdade – não aquele que pede ajuda a uma IA.

Fiquei fascinado. Absolutamente hipnotizado. Dar ordens ao computador era o máximo. Exceto… quando ele não obedecia. Quando você imaginava X e recebia Y compilado. Mas sabe, era justamente isso que nos viciava – o desafio deliciosamente frustante de se comunicar com uma máquina que parecia ter passado por terapia de comportamento questionável.

Plot twist: Clipper hoje está tão morto quanto o floppy disk. Praticamente extinto. Se houver algum sistema legado ainda rodando em DOS por aí, é porque o proprietário é ou um herói que defende código crítico com unhas e dentes, ou um romântico incurável demais para migrar esse dinossauro para o Harbour. Saudades, mas saudades mesmo.

Aqui está o detalhe irônico: o prazer é o mesmo. Programar em Clipper ou em Java é exatamente a mesma sensação de poder – apenas com melhor sintaxe e sem a chance de sua máquina explodir[1]. Curioso, não é?

Veja só este monumento de simplicidade – o clássico “Olá Admirável Mundo Novo!!!” em Clipper:

CLEAR
@ 0,0 SAY "Olá Admirável Mundo Novo!!!"

Duas linhas. Apenas duas linhas separando você da transcendência digital.

As bíblias sagradas dos anos 90? Ah, elas existiram! Mestres como João Ramalho e Antônio Vidal nos entregaram os primeiros tomos que devorávamos como se fossem manuais de magia[3]. Comprei pilhas desses livros. Amarelecidos. Empoeirados. Perfeitos.

Então, anos depois, a nostalgia me acerta como um soco: E se eu voltasse? Compro mais livros sobre Clipper. Como hobby. E sabe qual é a melancolia deliciosa disso? Programar sem cobranças é pura alquimia mental – exercita a mente, afasta a senilidade e traz de volta aquele rapaz de 1994, digitando com o coração acelerado.

Vida longa ao Clipper! O dinossauro pode estar morto, mas seus fósseis ainda brilham.