O sonho que parecia ficção científica

Nos idos dos anos 90, ser adolescente no Brasil era quase sinônimo de “olhar vitrines de ferro‑velho e achar que o “PC” era algum tipo de animal exótico”. Eu via aqueles monolitos de preço inacessível e pensava: “Um dia…”.

Trabalhei, suei, economizei… e, em 1997, o universo conspirou (ou a inflação fez o seu melhor) e entregou‑me o IBM PS/ValuePoint 486 DX2 66 MHz.

  • Torre robusta: parecia um caixão de 90 kg, mas cheirava a “novo” (e a “dinheiro queimado”).
  • Preço: doía mais que tomar sorvete de pimenta.
  • Contexto Brasil: inflação nas alturas, internet discada mais lenta que tartaruga com dor de cotovelo – ter um PC era quase ganhar na loteria.

Nota: o “valor sentimental” supera em mil vezes o “valor de mercado”.


Lentidão digna de filme de suspense

Se o Windows 95 rodava como “tartaruga bêbada”, meu 486 era pinguim anestesiado.

CaracterísticaEspecificação (na época)Comentário irônico
Processador66 MHz DX2“Turbo”… se o turbo fosse um caracol
RAM8 MB (máx 64 MB)Memória suficiente para abrir um documento WordPerfect
HD400 – 500 MB“Gigante” – cabia tudo, exceto todo o Windows
Placa de vídeoS3 1 MB, 800 × 600Resolução digna de “pixel art” antes da pixel art
DrivesSem CD‑ROM rápido, só portas seriais “infinitas”USB? Só se fosse “Unidade de Susto”

O boot durava minutos eternos, como se o computador estivesse recitando um poema antes de iniciar. Cada multitarefa era uma “piada cruel”: abrir o Excel e ele travava com a elegância de um mimo que cai no chão. Ainda assim, havia felicidade pura: à noite, a tela azul reluzia no quarto escuro como um farol de esperança para um adolescente cego de futuro.


Aventuras épicas (ou quase) em Clipper

  • WordPerfect: o paraíso de digitação, onde Ctrl+S era praticamente um sacrifício ao deus da paciência.
  • Excel: travava tão bem que, se fosse um filme, já teria ganho o Oscar de “Melhor Edição”.
  • Clipper: aquele linguajar de DOS que compilava mais devagar que minha avó enviando carta pelo correio.

Cada compilação demorada era, secretamente, uma vitória contra o analfabetismo digital.


O suspense… o drama da falha

Até que, numa noite de calor extremo, a tela ficou preta.

  1. Primeiro tapa na tampa do gabinete: “volta, seu bicho”.
  2. Segundo tapa, mais forte: “resiste, por favor”.
  3. Muitos tapinhas depois, o silêncio mortal tomou conta.

O destino — que adora ironias — riu alto: o 486 caiu de vez.

“Fim de era”, pensei, com o coração dando cambalhotas, enquanto o ventilador, cansado, soltava o último suspiro.

O substituto chegou: Pentium 120 MHz, veloz como um foguete (para quem ainda usava Windows 95). A transição foi quase um plot twist de série de TV: a troca de um dinossauro por um… bem, ainda um dinossauro, mas menos extinto.


Epílogo: Saudosismo com pitada de ironia

Hoje, ao lembrar daquele 486, reconheço que ele não era perfeito – lento, caprichoso, pré‑histórico. Mas ele me deu asas. Transformou um adulto jovem sem PC em um programador de Clipper que acreditava que “GET” fosse sinônimo de “conquista”.

Obrigado, ValuePoint. Você pode ter sido o vilão de cada carregamento interminável, mas também foi o herói que me ensinou a persistir – e a não confiar em tapinhas como solução de problemas.

O Pentium chegou, a velocidade aumentou e os memes evoluíram, mas o primeiro amor digital? Esse nunca será esquecido.


Referências (para o leitor curioso):

  1. Inflação brasileira nos anos 90 – documentos oficiais do Banco Central.
  2. Especificações técnicas do IBM PS/ValuePoint 486 DX2.
  3. Experiência de uso de WordPerfect e Excel em ambientes DOS.
  4. Desenvolvimento em Clipper: compilação e execução em 1997.
  5. Comparativo de desempenho entre 486 DX2 e Pentium 120 MHz.